Lembranças da oficina

Eu devia ter uns 8 anos de idade… Ia passar sempre uns dias das minhas férias de verão na oficina mecânica do meu pai. Era algo que eu adorava.

Eu estava acompanhando seu serviço no motor de um carro de um cliente. Ele estava embaixo do carro e o quadro de ferramentas ficava na parede a cerca de uns 5 metros. Para aumentar a velocidade do trabalho eu fazia o papel de “instrumentista”. Ele pedia a chave de boca 8mm e eu corria até lá para pegar. No início precisei de um certo tempo para decorar o tamanho e não ter que ler aqueles números em uma chave suja de graxa. Depois de dois dias já estava treinado e a coisa começou a ficar fácil. Meu objetivo era descobrir qual seria a chave que meu pai pediria antes dele precisar. Quando isso começou a dar certo veio o elogio que ficou registrado em partes profundas do meu cérebro. Aquele elogio “portuga” que ele bem sabia fazer:

“Como é que você sabe que eu vou precisar da chave L e não da chave de boca? Acho que você está aprendendo muito rápido. É melhor você ficar lá na frente da loja e sair daqui debaixo do carro. Não quero que você trabalhe com isso. Você vai ser piloto.”

Mas eu ficava sempre tentando ajudar os mecânicos nos projetos. Tinha que aproveitar o tempo que meu pai ficava fora da oficina para sair do caixa e ir para o “chão de fábrica”. Uma das coisas que eu sempre fazia antes de terminar um serviço era limpar peça por peça os motores. Desmontava tudo e passava uma escova com óleo diesel para dirar os detritos. Isso acabou sendo adotado por todos os mecânicos para que meu pai não falasse que o serviço de um garoto era mais caprichoso que o deles.

Depois de um tempo ele percebeu que o meu perfil era mesmo o de meter a mão na massa, ou melhor, na graxa. Devo ter sido 4 ou 5 férias seguidas trabalhando na oficina. Quisera haver outras férias assim.

Meu pai não acertou quanto a minha carreira. Não me tornei piloto por razões físicas (alguns quilinhos a mais) e por falta de patrocínio, apesar de manter a direção afiada sempre que possível em corridas de karting.

Essas experiências na oficina me moldaram de uma maneira que sinto que até hoje quero predizer o que vem depois nos projetos. Eu obviamente tinha que seguir a engenharia, mas queria ser um engenheiro que sujasse as mãos, trabalhasse junto às equipes de operação e não ficasse restrito ao escritório. Tive essa oportunidade em diversos projetos, principalmente nos que focavam na auditoria e sintonia de malhas de controle. Eu atingi o ápice dessa minha habilidade ao trabalhar na construção e partida de unidades piloto. Era a oportunidade de reproduzir o que tinha na minha memória. Entrar debaixo dos reatores químicos assim como meu pai ficava embaixo dos carros na oficina.

Esse período ficou pra trás mas até hoje gosto de me envolver tecnicamente nas questões dos projetos onde participo e aprender cada vez mais com quem sabe, ou seja, quem executa.

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